Sobre memes políticos. Alguns fundamentos e consequências.

Mobilização de internet, tal qual mudar a foto pessoal em qualquer mídia social para demonstrar indignação, têm fundamentações e consequências.

Algumas fundamentações:

* Trata-se de um experimento comportamental já antigo da internet, uma das mais simples e mais eficientes. Argumentos simples, que trabalha uma parcela pequena porém muito valorizada da moralidade pessoal. Uma indignação que a pessoa não sabe como trabalha-la sozinha;

* É uma percepção de que a pessoa não têm grande importância no processo social como um todo, o velho “quem sou eu na fila do pão”, que por baixa autoestima gera identidade e empatia. 

* Baixa integração nos assuntos comunitários gera uma das mais antigas formas de atuação política representativa no Brasil. Por falta de uma integração comunitária ampla o suficiente fundamental para soluções de problemas simples (disputas simples entre vizinhos, por exemplo), as questões mais amplas (pavimentação de ruas, consertos de água, esgoto, eletricidade) geram a necessidade de que “alguém têm que fazer alguma coisa”, desde que não seja a própria pessoa, numa lógica de consumo de bens sociais coletivos públicos. Esse “alguém” quando surge ganha um poder acima do da representação simples. Se torna o “proprietário” de uma determinada área, age como uma figura paternal com as pessoas e a área de sua influência política, social e econômica, sua “propriedade”;

* Em função dessa cenário, a sensação de incapacidade política e social, portanto baixa autoestima, conduz as pessoas a delegarem sua indignação de forma seletiva a poucas ferramentas sociais que lhe estão “disponíveis”;

* Neste contexto, aqui descrito muito superficialmente, as pessoas ficam suscetíveis a argumentos muito simples, que trazem alguma coerência moral individual. Artes simples, com frases de efeito, explicações elementares e um senso de proximidade geram empatia imediata em uma ação simples que traz uma reposta imediata em rede. Estas são algumas das bases dos memes de cunho político.

Consequências: 

*Uma vez obtida a empatia, a identidade se estipula imediatamente. Introdução de novos pequenos argumentos geram vínculos ideológicos que têm perenidade enquanto ainda fazem sentido às pessoas;

*Integração entre indivíduos se torna da ordem de familiaridade expresso em termos de parentesco;

*Surgem formas de representação política que delegam as capacidades decisórias individuais as mais fundamentais porém de imenso escopo (exemplo: “me representa” ou uma pessoa se torna “mito”);

*Mobilização ideológica de extrema eficiência em ações individuais, em volume de dados e tempo de exposição.

*Manipulação de sentimentos em curtíssimo prazo, com ganhos políticos imediatos e resultados políticos eficazes no médio prazo sem risco de questionamentos a tempo de afetar radicalmente os objetivos estipulados de serem implementados;

*Notícias falsas integram esse regime ideológico. São fonte de análise comportamental e geram oportunidades de comercialização a partir de comportamentos esperados já avaliados;

*Um meme político tem efeito de ocupação de espaços virtuais, semelhantes a spams porém muito mais eficazes e não são tratados como ataques maciços a servidores.

Vivemos uma era de vigilância em tempo real voluntária e compulsória, análises comportamentais profundas, manipulação cada vez mais eficiente de emoções, com efeitos políticos, sociais e econômicos cada vez mais evidentes e profundos.

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About mezgravis

Formado em Ciências Sociais, mestre em Geografia Humana, pesquisador da economia do livro e da ascensão definitiva das informações no sistema produtivo contemporâneo.
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