[off topic] O “centrão”, o “baixo clero” e as articulações políticas tradicionais do Brasil

Incitado pela excelente análise de prof. Jairo Nicolau no Nexo Jornal de 15 de julho de 2016, segue uma breve reflexão sobre o que se configura hoje no sistema de representação parlamentar no Brasil.

O “centrão” está no poder desde pelo menos o racha da Arena no processo de abertura política, final do governo Figueiredo.

Foi se renovando aos poucos a partir de práticas antigas do sistema de representação parlamentar.

O “centrão” é uma estrutura de articulação política parlamentar que tem por base as condições regionais do gigantismo do Brasil, produto direto das contradições fundamentais da formação socioespacial brasileira fora dos centros econômicos dinâmicos.

As articulações municipais e regionais seguem as contradições sociais e econômicas de cada território específico, de cada lugar. As relações econômicas específicas, os interesses de elites locais em reproduzir suas condições econômicas, posição de mando social, de atuação juntos às instituições do Estado (via contratações, licitações e concessões por exemplo) e ocupação de cargos executivos (prefeituras em primeiro lugar) e legislativos (vereadores em primeiro lugar) dão as bases políticas para a escolha de nomes para representações em cargos políticos mais acima (deputados estaduais, governadores e aparelhos de Estado de suas unidades da federação) até alcançarem as instâncias nacionais de representação (deputados federais, senadores), ministérios (e suas instituições subordinadas) e as empresas estatais.

As contradições da sociedade brasileira tem velhas bases, como o coronelismo. E associam-se diretamente a novas estruturas sociais que têm fundamentações antigas mas com novas práticas e atores – as bancadas religiosas por exemplo – formando novos quadros de elite social.

Como elites econômicas, sociais e políticas, articulam-se com interesses capitalistas (nacionais e estrangeiros) que buscam atuar no território brasileiro para se tornarem sócios diretos e indiretos, formando uma estrutura de inovação em reprodução de velhas práticas socioespaciais.

O chamado “baixo clero” da Câmara dos Deputados são exatamente os nomes eleitos a partir das condições socioespaciais regionais. Não buscam posições de destaque midiático e de liderança nas grandes discussões do Parlamento, mas são articuladores discretos de emendas parlamentares com orçamento específico e tratam das demandas locais de forma mais objetiva. Podem formar o “centrão” ou não. Dependem das condições políticas dadas em cada momento e conforme os interesses locais que representam. Porém nomes se destacam por sua capacidade de articulação política e relacionamento com a mídia, renovando as lideranças políticas e partidárias de repercussão nacional. São estas lideranças que vêm a formar e renovar o “centrão”, como forma de legitimar suas posições locais, partidárias e nacionais.

Parlamentares de partidos como PT e PCdoB, por exemplo, observaram que o “baixo clero” se articulou sob a liderança de Eduardo Cunha para atuarem como um bloco cada vez mais unificado, a partir de seus interesses locais e se afastando cada vez mais da estrutura de lideranças políticas, dos nomes que integram as lideranças partidárias e dos partidos como instituições.

Rodrigo Maia, dentro da articulação tradicional das elites de expressão nacional, se tornou expressão política de reorganização da estrutura partidária e de lideranças que sentiram a perda de poder político que esta articulação do “baixo clero” provocava dentro dos partidos conservadores. Uma ação que questionava a legitimidade de lideranças partidárias e políticas convencionais (i.e. de representação partidária). O seu discurso de disputas “na política”, que ressaltou a todo momento em sua campanha para a presidência da Câmara dos Deputados, é a síntese desta ruptura que o “baixo clero” representa. O “centrão” volta à evidência pública justamente como uma articulação suprapartidária conservadora para reorganização de lideranças.

Foi uma escolha política urgente de rearticulação de lideranças a partir de velhas práticas parlamentares. O “centrão” é, por mais retrógrado que seja, ainda uma estrutura de articulação politica que respeita lideranças politicas, sociais e econômicas em superação a uma pulverização extrema de articulações e negociações do “baixo clero”. A atuação política parlamentar de José Sarney, o nome máximo do “centrão” desde antes da abertura política do Brasil é historicamente representante desta articulação centralizadora do “centrão”.

 

Advertisements

About mezgravis

Formado em Ciências Sociais, mestre em Geografia Humana, pesquisador da economia do livro e da ascensão definitiva das informações no sistema produtivo contemporâneo.
This entry was posted in capital monopolista, concentração econômica, financiamento, Ideologia, Manipulação, planejamento nacional and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s