Produção dos livros: três estruturas econômicas em conflito

Como se tornou comum nos últimos dias, um fato gera reflexão – as condições de devolução dos livros de livraria para uma editora (AQUI).

Um velho problema precisa voltar ao debate: a relação entre o tripé fundamental da cadeia produtiva dos livros no país – editoras, distribuidoras e livrarias.

É preciso observar os problemas existentes na cadeia produtiva do livro com muita seriedade. Consignação e sistema de distribuição precisam ser repensados com urgência.

Livrarias e editoras não podem ficar em lados opostos. E os problemas fundamentais não são tecnológicos. A inovação também exige mudanças de processos de produção e administração.

Quando trabalhei em livraria, vivi situação semelhante a das fotos. Foram poucas, mas relevantes. No caso era o material que vinha de uma distribuidora. E quando tentamos devolver por falta de condições de venda, alegaram que os danos ocorreram na loja. Para não perder contrato e acesso, algumas faturas foram pagas pela livraria, mas à época fomos obrigados a procurar outras distribuidoras e em condições de negociações mais apertadas.

São problemas que precisam ser encarados de frente por toda a estrutura do mercado. Senão alguém fará no lugar de cada um dos integrantes da cadeia produtiva e tornará hegemônica seu modelo de negócio. E o que me incomoda mais é que estes problemas não foram enfrentados minimamente nestes últimos anos. E fora de período de crise da economia brasileira – para não falar da eterna crise do mercado editorial.

Um dos graves problemas são os acertos existentes para tornar títulos mais visíveis que a imensa maioria dos demais em grandes livrarias. De fato, as maiores impõem suas políticas. E só estão com sua ação hegemônica questionada porque atores ainda maiores entraram no mercado.

As pequenas livrarias enfrentam problemas de acesso a crédito e competência administrativa. As consignações viram crédito e não politica de renovação de lançamentos e livros que vendem bem.

De um lado temos as livrarias, que tem práticas antigas de administração em sua maioria mas já se destacam nomes extremamente criativos, inovadoras e economicamente muito interessantes.

No meio as distribuidoras que são nós de circulação dos livros no território brasileiro – posição apenas comparável aos Correios no ecommerce – cujas práticas ainda serem transbordos de estoque. São empresas de relacionamento entre livrarias e editoras, mas não se destacam grandes inovações administrativas

E na origem as editoras, que enfrentam as dificuldades das práticas administrativas das duas anteriores. Nos últimos anos descobriram as benesses da venda direta aos consumidores via ecommerce, com margens muito superiores de ganhos e capacidade de descontos muito mais amplas. Fora a redução drástica com perdas de mercadoria.

Aqui neste blog mesmo apresentei nos últimos anos várias reflexões neste mesmo tema. Os termos que apresento aqui hoje são quase nada diferentes do que argumentei antes. Infelizmente desde antes das minhas argumentações anteriores o mercado vive um compasso de espera que não se justifica em forma alguma. Quando o debate não é feito de forma ampla dentro de uma cadeia produtiva – repito – atores econômicos mais poderosos impõem suas práticas e políticas administrativas e se tornam hegemônicas. Algumas das gigantes já chegaram. Ainda estão se adequando às condições “sui generis” da Economia Brasileira. Mas é apenas uma questão de tempo para se imporem.

Obrigado pela leitura.

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About mezgravis

Formado em Ciências Sociais, mestre em Geografia Humana, pesquisador da economia do livro e da ascensão definitiva das informações no sistema produtivo contemporâneo.
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