As “novas” bases materiais e econômicas dos livros – algumas reflexões.

A questão dos livros eletrônicos agora começa revelar as suas bases materiais e econômicas verdadeiras.

1) A impressão digital

A primeira que gostaria de ressaltar brevemente e a impressão digital.

O jornal Brasil Econômico de hoje (02 de fevereiro de 2011) apresentou uma reportagem, de Cintia Esteves, mostrando que as grandes Record e Ediouro estão investindo em impressão digital.

A editora Record adquiriu duas máquinas de impressão em pequenas tiragens, de ate 700 exemplares. E assim manter uma maior variedade de títulos do portfólio da empresa no mercado, inclusive permitindo o retorno de títulos há muito tempo esgotados.

Por sua vez, a Ediouro criou a Singular Digital, que alem da impressão da própria Ediouro, oferece uma completa solução logística para outras empresas, tanto em impressão quanto na criação destes títulos em e-books.

Esta noticia me fez lembrar Thomas Friedman no livro “O Mundo E Plano”. As gigantes estão raciocinando as transformações do mercado como as pequenas editoras: descobriu o imenso potencial de vendas dos títulos que nao são grandes campeões de vendas, mas juntos garantem um faturamento importante. Livro esgotado e um livro que deixa de ser vendido.

A economia de custos da impressão digital em pequenas tiragens revelou novas possibilidades de lucros: a venda pulverizada, em paralelo aos títulos de vendas em larga escala. Permite as grandes editoras imporem maior pressão concorrencial sobre as pequenas editoras, pois agora praticamente todos os tipos de autores e conteúdos interessam.

As pequenas editoras terão que oferecer novas e diferentes condições aos autores, pois a quantidade de títulos rejeitados pelas grandes diminuirá consideravelmente. E as grandes terão maior capacidade de assédio a professores-autores, alem da que já existe atualmente, pois nenhum título será pouco rentável.

2) Os sistemas operacionais e o mercado editorial

A segunda questão que gostaria de adiantar ficou mais evidente com as recentes decisões da Apple de bloquear as vendas de e-books da Amazon no iPad e iPhone apenas pelo aplicativo da Amazon (PublishNews – http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=61940 e The BookSeller – http://www.thebookseller.com/news/apple-confirms-rule-change-over-e-book-apps.html?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter).

O debate esta deixando de ser sobre um provavel formato-padrão dos e-books e esta claramente se definindo sobre o gerenciamento destes. Em outras palavras: a disputa econômica central e sobre os sistemas operacionais que armazenam e gerenciam os aparelhos, no caso os tablets, que substituição os laptops.

Windows versus iOS versus Android. Nao importa sequer qual seja o aparelho. exceção ao iPad e iPhone. Qualquer um destes sistemas operacionais podem rodar qualquer um dos formatos de e-books que existem hoje. A disputa e sobre as preferencias do consumidor.

Emerge agora uma nova racionalidade de decisões econômicas a empresas de tecnologia da informação, editoras e autores: o acesso direto aos leitores por novas bases materiais alem da impressão.

De um lado temos as gigantes do gerenciamento das informações (TI), que querem muito lucrativamente reduzir as distancias entre quem busca uma informação e onde ela esta armazenada (o livro físico como um empecilho). E de outro estão as editoras, os autores e os centros de pesquisas cujos objetivos são a criação de livros de qualidade, da produção de conteúdos que superam os meros agrupamentos e gernciamento de informações.

Nesta correlacao de forcas , empresas de tecnologia da informação, como a Microsoft e Apple, e de gerenciamento das informações, como Google e IBM, apresentam seus sistemas operacionais como as principais respostas tecnológicas ao gerenciamento e mesmo de edição das informações. A produção e a circulação de livros digitais nao “escapa” a este contexto.

Independentemente dos formatos que eles venham a serem apresentados, os livros digitais certamente serão gerenciados, no contexto da maioria dos leitores / consumidores, por Windows, Android ou iOS. A base material que o leitor manipulara seus livros digitais será a partir de alguma versão destes sistemas operacionais em tablets, tal qual a maioria dos computadores atualmente. Novas possibilidades a partir de velhos atores sócio-espaciais e velhas bases materiais.

As editoras e as empresas de comercialização de livros em todos os seus formatos – Amazon e demais empresas de venda direta ao consumidor – terão que se adequar a estes sistemas operacionais. Nao importa mais qual e ou será o formato dos livros, eles serão criados, distribuídos e comercializados a partir destes sistemas operacionais. Mesmo os livros impressos e mesmo que os livros digitais sejam comercializados em livrarias físicas.

Obrigado pela leitura e pela paciência.

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About mezgravis

Formado em Ciências Sociais, mestre em Geografia Humana, pesquisador da economia do livro e da ascensão definitiva das informações no sistema produtivo contemporâneo.
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One Response to As “novas” bases materiais e econômicas dos livros – algumas reflexões.

  1. Interesante la información sobre Record y Eidouro. Hace ya casi una década, la colombiana Norma también montó un servicio de edición bajo demanda (POD). Llegué a conocer sus plantas en Barcelona. Eso no significó, por entonces, ningún cambio en la cadena de valor tradicional del libro: las editoriales, y en especial las grandes, siguen teniendo su fuerte en el dominio del punto de venta a través de fuertes cadenas de distribución y comercialización. La tirada pequeña es más un recurso al que llegan en el momento de la reedición que algo aplicable, para ellas, en el lanzamiento de un libro. Esto está ligado directamente a la visibilidad del libro físico: una tirada de 700 ejemplares jamás garantizará ventas, a excepción del ámbito más árido de la publicación académica pura y dura.

    En cuanto a las reflexiones sobre los sistemas operativos, creo que sería importante incorporar a ellas un tercer elemento: los libros en los navegadores. Es la propuesta de Google, por ejemplo, o de desarrolladores independientes como IbisReader. Soy de la opinión de que esta tendencia ganará adeptos y que hacia mediados de la década tendrá una importante cuota de mercado.

    El problema no es iOS o Android o Windows. Un ePub es legible en cualquiera de los sitemas operativos. El problema que se presenta con el cambio de política de Apple es que el iBookstore quiere transformarse en pasarela de pago (carísima) para todo lo que se compre a través de las apps del app store de Jobs. Los principales perjudicados serán otros minoristas, como Amazon, Kobo o Barnes & Noble. Es imprevisible qué sucederá, pero la práctica es cerradamente monopolística. Yo lo veo más como un suicidio del iPad como plataforma dominante para el consumo de contenidos que como una tendencia en la futura circulación y comercialización de ebooks.

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